EdTech & HigherEd Job Search

2 de Fevereiro de 2010 @ 17:50 por João Mattar

Sites to search for jobs in the Educational Technology and Higher Education fields:

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Bibliografia Platão

2 de Fevereiro de 2010 @ 09:25 por João Mattar

Uma lista incompleta e despretensiosa (e em desenvolvimento) com alguns livros que tenho (*) ou já li, e outros que espero ler, de ou sobre Platão:

Diálogos

Em português, há uma tradução dos Diálogos de Platão de Carlos Alberto Nunes, editada pela Universidade Federal do Pará em 14 volumes (1973-1980), esgotada. Alguns volumes foram reeditados, mas a partir de 2000 começou uma reedição gradual, coordenada por Benedito Nunes, com novo projeto gráfico e produção editorial.

Em inglês, uma tradução importante é:

HAMILTON, Edith; CAIRNS, Huntington. The Collected Dialogues of Plato: including the Letters (Bollingen Series LXXI). Princeton, NJ: Princeton University Press, 1989.*

Cf. tb Diálogos de Platão na Web, que inclui a 3. ed. da tradução de B. Jowett pela Oxford University Press.

Em português, destaque para:

Platão (4 diálogos: O Banquete, Fédon, Sofista e Político). Coleção Os Pensadores - inclui introdução, notas e comentários.*

A República. Trad. Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.*

Alguns textos com comentários:

BERNHARDT, J. Platon et le matérialisme ancien: la théorie de l’Ame - harmonie dans la philosophie de Platon.

CHÂTELET, François. Platão. Tradução de Sousa Dias. Porto: Rés.*

CORNFORD, F. M. Plato’s Theory of Knowledge.

DODDS, E. R. Os gregos e o irracional.

GOLDSCHIMIDT, Victor. Os diálogos de Platão: estrutura e método dialético. Tradução: Dion Davi Macedo. São Paulo: Loyola, 2008. (tenho uma edição bem velha em francês!)

GOLDSCHMIDT, Victor. A religião de Platão. Trad. Ieda e Oswaldo Porchat Pereira. 2. ed. São Paulo: Difel, 1970

KOYRÉ, A. Introduction à la Lecture de Platon.

KRAUT, R. H. (Org.). The Cambridge Companion to Plato.

RICOEUR, Paul. Etre, essence et substance chez Platon et Aristote.

ROBIN, L. La théorie de l’amour chez Platon.

ROHDE, E. Psique.

ROSS, W. D. Plato’s theory of ideas.

TAYLOR, A. E. Plato.

Sugestões para ampliar?

Diálogos de Platão na Web

1 de Fevereiro de 2010 @ 23:43 por João Mattar

Andei fuçando hoje a web pelos Diálogos de Platão. Em português, praticamente não encontrei nada.

Bernard Suzanne mantém a página Links to Plato’s works on the Web, e de lá você vai ao céu (em inglês!).

John Uebersax mantém a página Links to Plato’s Dialogues on the Web, que é baseada em Suzanne (preciso conferir isso com mais cuidado), mas de qualquer maneira o céu está organizado de outra maneira.

Uma das principais fontes indicadas é:

The Dialogues of Plato translated into English with Analyses and Introductions by B. Jowett, M.A. in Five Volumes. 3rd edition revised and corrected (Oxford University Press, 1892).

Como a tradução encontra-se em domínio público, a obra está também disponível em outros sites.

É possível inclusive ouvir os 5 volumes no Internet Archive, com seus respectivos prefácios:

Vol. 1
CHARMIDES, LYSIS, LACHES, PROTAGORAS, EUTHYDEMUS, CRATYLUS, PHAEDRUS, ION, SYMPOSIUM

Vol. 2
MENO. EUTHYPHRO. APOLOGY. CRITO. PHAEDO. GORGIAS.
APPENDIX I; LESSER HIPPIAS. ALCIBIADES I. MENEXENUS.
APPENDIX II; ALCIBIADES II. ERYXIAS.

Vol. 3
REPUBLIC. TIMAEUS. CRITIAS.

Vol. 4
PARMENIDES. THEAETETUS. SOPHIST. STATESMAN. PHILEBUS.

Vol. 5
LAWS.

Enfim, dá para se divertir bastante!

Métodos para Leitura

1 de Fevereiro de 2010 @ 02:10 por João Mattar

Como vamos ler muito durante a disciplina Instructional Design na Boise, a primeira sugestão são alguns links para métodos de leitura (alguns incluem memorização):

How to Read Textbooks with PQ RAR

A Strategy for Reading Textbooks (SQRW)

The SQ3R Reading Method

The KWL Reading Method

Outras sugestões?

Instructional Design

1 de Fevereiro de 2010 @ 01:56 por João Mattar

Neste semestre estou cursando a disciplina Instructional Design no EdTech da Boise State University. Jarek Janio é o professor.

Como tenho feito todos os semestres, registrarei aqui no blog tudo o que for possível: links para sites, resenha dos livros, discussões, projetos desenvolvidos etc. Já criei uma categoria no blog, Edtech503, pela qual vocês podem acompanhar e participar de tudo.

O curso está focado no design sistemático da instrução e modelos alternativos. Seu objetivo geral é considerar e utilizar o processo sistemático de Design Instrucional (DI) para criar um produto instrucional. Discutiremos o desenvolvimento histórico da prática do DI; identificaremos diferentes modelos de DI; compararemos contextos e teorias de aprendizagem e avaliaremos suas relações com o DI; exploraremos os principais componentes do processo de DI; dentre outras atividades.

O curso está baseado em padrões de DI desenvolvidos pela IBSTIPI - International Board of Standards for Training, Performance and Instruction.

O livro base para o curso é:

SMITH, Patrici. L.; RAGAN, Tilman J. Instructional design. 3rd ed. Hiboken, NJ: John Wiley & Sons, 2005.

Mas, por conta própria, durante o curso vou usar intensamente também 2 outros livros:

BROWN, Abbie; GREEN, Timothy D. The essentials of instrucional design: connecting fundamental principles with process and practice. Upper Saddle River, NJ: Pearson, 2006.

DICK, Walter; CAREY, Lou; CAREY, James O. The systematic design of instruction. 7th ed. Upper Saddle River, NJ: Pearson, 2009.

Além, é claro, de várias outras leituras durante o semestre. Logo crio posts separados para a resenha de cada um desses livros, todos devidamente marcados com a tag Edtech503.

Aproveitando, a #eadsunday de hoje foi sensacional e com muita gente boa, e quem perdeu pode recuperar a discussão pelo Twitter - mas tem que voltar algumas páginas até chegar a domingo de manhã, para acompanhar do começo ao fim. Eu expus uma visão bastante crítica do Design Instrucional, contra a qual houve bastante resistência, então espero durante este semestre deixá-la mais clara e quem sabe reformulá-la.

Bem-vindo - será um prazer contar com você nesta jornada e pode convidar quem quiser - cf. sempre durante o semestre o blog, ou a categoria Edtech503. Espero que possamos debater bastante por aqui!

Bibliografia Pré-Socráticos

30 de Janeiro de 2010 @ 20:33 por João Mattar

Uma breve bibliografia comentada sobre os filósofos pré-socráticos. Há muito mais coisas, é claro, isso é apenas o que andei consultando nestes dias.

BARNES, Jonathan. Filósofos pré-socráticos. Trad. Julio Fischer. São Paulo: Martins Fontes, 1997. (Clássicos)
Além de uma introdução interessante, apresenta fragmentos e seleções da doxografia dos principais filósofos pré-socráticos.

BRUN, Jean. Os pré-socráticos. Trad. Armindo Rodrigues Lisboa. Edições 70, s/d. (Biblioteca Básica de Filosofia).
Um livrinho que já reli mais de uma vez, com um bom resumo sobre os pré-socráticos.

BURNET, John. O despertar da filosofia grega. Trad. Mauro Gama. São Paulo: Siciliano, 1994.
Além de uma interessante Introdução, os capítulos abordam: a escola milésia, ciência e religião, Heráclito, Parmênides, Empédocles, Anaxágoras, os pitagóricos, os eleatas mais jovens, Leucipo, e ecletismo e reação, além de um curto anexo sobre o significado de physis.

CARTLEDGE, Paul. Demócrito: Demócrito e a política atomista. Trad. Angelika Elisabeth Köhnke. São Paulo: Editora UNESP, 2001. (Coleção Grandes Filósofos)
Livrinho que além da vida de Demócrito, aborda os seguintes temas em sua obra: física e epistemologia, cosmologia e cosmografia, antropologia e sociologia, psicologia e medicina, e ética e política.

COSTA, Alexandre. Heráclito: fragmentos contextualizados. Tradução, apresentação e comentários por Alexandre Costa. Rio de Janeiro: Difel, 2002.
Além de informações sobre a vida e obra de Heráclito, traz a tradução dos fragmentos de Heráclito contextualizados nas obras em que aparecem, depois separados, seguindo-se um comentário geral.

HEIDEGGER, Martin. Parmenides. Translated by André Schuwer and Richard Rojcewicz. Bloomington, IN: Indiana University Press, 1998.
Curso ministrado por Heidegger na Universidade de Friburgo entre 1942 e 1943, aborda dentre outros pontos a questão da verdade na obra de Parmênides.

HEIDEGGER, Martin. Heráclito: a origem do pensamento ocidental: lógica: a doutrina heraclítica do logos. Trad. Marcia Sá Cavalcante Schuback. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1998.
O longo livro apresenta 2 cursos ministrados por Heidegger entre 1943 e 1944.

SOUZA, José Cavalcante de (Sel. textos) Os pré-socráticos: fragmentos, doxografia e comentários. 2.ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores).
Seleção de fragmentos e comentários (de Nietzsche e Heidegger, p.ex.), traduzidos pelos professores de grego da USP, com introdução e valiosas notas.

Shorty Awards - último dia para votar

28 de Janeiro de 2010 @ 08:34 por João Mattar


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Já escrevi por aqui um post curto e outro bem mais longo sobre o Shorty Awards. O prazo para votar na primeira fase vai até amanhã, 29/01. Depois, no início de Fevereiro, haverá uma segunda fase, mas ainda não entendi como funcionará.

Ontem os organizadores fizeram uma auditoria geral nos votos e muita coisa mudou. Votos dados com retweet (RT) foram desconsiderados, e provavelmente votos que terminam com because…, sem nada escrito depois, também serão cancelados. Confira se seu voto está válido. Se seu voto não tem nada escrito depois do because…, mesmo que ainda esteja válido, por favor vote de novo, escrevendo alguma coisa depois do because.

Com a auditoria, o fake do pastor, que estava em segundo lugar, já foi desclassificado (então agora estou novamente em segundo), e o pastor que estava disparado em primeiro lugar com mais de 5.000 votos, agora tem 300 e poucos. Confira a classificação na categoria educação.

Na faxina de ontem, educação passou de official category para community category, o que não faz muito sentido, pois ela tem mais votos e mais indicados que muitas categorias oficiais. Já escrevi um email para a organização:

info@shortyawards.com

e também enviei um tweet para eles:

@shortyawards

e você pode fazer o mesmo, afinal, sempre sobra para a educação!

Se você ainda não votou, é só twittar:

I nominate @joaomattar for a Shorty Awards in #education because of his tweets in education

Obrigado!

Principium Sapientiae: as origens do pensamento filosófico grego - F. M. Cornford

27 de Janeiro de 2010 @ 19:42 por João Mattar

CORNFORD, F. M. Principium Sapientiae: as origens do pensamento filosófico grego. Trad. Maria Manuela Rocheta dos Santos. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1989. Resenha de João Mattar.

É o último livro de Cornford, em que ele revisita questões que discutiu em seus livros anteriores, principalmente From Religion to Philosophy. O final da segunda parte é inacabado. Cornord escreve muito bem, é realmente um deleite ler seus textos.

A ciência dos filósofos e a experimentação não se davam no nosso nível. Tratou-se mais de observação. Hipócrates, p.ex., teria criticado a aplicação da filosofia natural, com postulados a priori, à medicina empírica. A medicina explorava a natureza do homem de baixo para cima, ao contrário da filosofia natural:

“Todos os testemunhos conduzem à conclusão de que a teoria empírica do conhecimento foi uma teoria médica, formulada pela primeira vez por Alcméon. Surgiu naturalmente da reflexão sobre a maneira como o médico de facto procedia e data do período em que os médicos mais inteligentes começaram a sentir o desejo de libertar a sua arte dos seus antecedentes mágicos. Este mesmo desejo no sentido do racionalismo tinha já levado os filósofos de Mileto a libertar a cosmogonia do seu aparato mitológico. Mas enquanto o filósofo recorreu a postulados abstractos sobre o estado originário das coisas, o médico, com a sua atenção constantemente fixada em casos individuais que era preciso resolver na prática, seguiu o caminho oposto, partindo da observação do particular para a generalização.” (p. 67).

Os primeiros filósofos não faziam experiências nem ciência como as fazemos hoje. O interesse de Platão pela matemática (por conceitos, não pela realidade empírica) tem origem pitagórica. Daí a importância da teoria da anamnesis ou reminiscências: recordamos o que já sabíamos. Essas teorias têm ligação com a imaginação do poeta e do vidente, mais do que do médico-empirista. Há portanto uma natural aproximação entre poetas, videntes, sábios e filósofos: “[…] nem a teoria de Demócrito nem a de Platão constituiriam uma invenção, pois as 3 figuras que eles associam - o profeta, o poeta e o sábio - estavam originariamente reunidas numa figura só.” (p. 140).

O xamã, no Oriente, reunia as figuras do profeta, poeta e sábio, num paralelo com os pitagóricos. Os filósofos teriam consciência de sua herança dos xamãs, com a religião e moral misturadas com matemática, astronomia e música.

Em certo momento, começa na Grécia um conflito entre o vidente e o filósofo, uma separação entre o vidente (que prevê o futuro) e o poeta (que canta o passado), entre o vidente e o filósofo. As objeções dos racionalistas ao antropomorfismo dos mitos gera também a separação entre a filosofia e a poesia, quando o sobrenatural converte-se em metafísica.

Na segunda parte do livro, Cornford estuda Anaximandro e os elementos míticos das cosmogonias, que não são um raciocínio livre sobre a realidade. O hino a Zeus em Hesíodo tem origem em ritos. É também explorada a história da vida de Zeus.

No Oriente, o mito cosmogônico é uma coisa contada, enquanto o ritual é a coisa feita. O mito, quando racionalizado, perde partes do rito e, portanto, torna-se ininteligível em outras culturas. Cornford explora o paralelismo entre Marduk e Zeus, além de mitos cananeus e rituais palestinos.

Os filósofos naturais gregos oferecem explicações sem a utilização de deuses, num retorno dos universais míticos sem vestes antropomórficas.

O livro termina com um Apêndice, em que W. K. C. Guthrie, que também escreveu o Prefácio da obra, procura resumir o que provavelmente seria a conclusão do livro de Cornford, valendo-se para isso de anotações do próprio autor. O Apêndice termina assim:

“O perigo de terminar com este sumário insatisfatório está em poder transmitir a impressão errada de que os primeiros filósofos gregos (e dos povos antigos foi só entre os Gregos que se realizou esta transição do mito para a filosofia) nada mais fizeram do que repetir as lições do mito numa terminologia modificada. Torna-se assim talvez necessário lembrar, primeiro, que, pelo que toca aos Iônios, este ponto é tratado no princípio do capítulo X e, segundo, que (como se salienta no capítulo I) a especulação milesiana não representa de modo algum a totalidade do empreendimento levado a cabo pelo pensamento científico grego primitivo. Há ainda a tradição médica, prática quanto à sua finalidade, experimental nos seus métodos, que pouco a pouco constituiu um corpo de conhecimentos sistemáticos, baseados na observação repetida dos factos e abertamente hostil às afirmações mais dogmáticas dos filósofos.” (p. 425)

Os Usos da Mitologia Grega - Ken Dowden

27 de Janeiro de 2010 @ 17:04 por João Mattar

DOWDEN, Ken. Os usos da mitologia grega. Trad. Cid Knipel Moreira. Campinas, SP: Papirus, 1994. Resenha de João Mattar.

Mitos inicialmente querem dizer discurso. Quando surge logos, entretanto, eles perdem espaço e se transformam em ficção, marca dos velhos poetas. Fábula é o termo latino para mito. A história, que aponta para o verdadeiro, passa a se opor ao mito. Alguns autores distinguem os seguintes termos de mitos, que Dowden não distinguirá na obra: saga, lenda, contos populares e contos de fada. Muitas obras mitológicas foram perdidas, mas sabemos que existiram.

Em 500 a.C. surgem os mitógrafos, que passam a fornecer um logos para o período mítico. Antes disso, os mitos eram transmitidos oralmente e depois registrados em vasos, esculturas etc., além de com a escrita, pelos poetas épicos e genealógicos. Dowden chega até a Metamorfose de Ovídio.

A Guerra de Troia e Homero tiveram um papel crucial, pois são registros mais de história, sobre os homens, do que sobre a criação, a origem das coisas e os deuses. Os heróis aí representados teriam vivido em tempos remotos, na pré-história local.

Os mitos gregos se distinguem das mitologias orientais pois não foram propagadas por sacerdotes. Não são portanto nem história, nem entretenimento, nem religião.

Dowden realiza também uma atenta leitura das abordagens sobre a mitologia: historicismo, alegoria (F. Creuzer), alegoria natural e mitologia comparada (F. Max Müller), teoria do mito-ritual de Cambridge (W. Robertson Smith, Sir J. G. Frazer, Jane Harrison, F. M. Cornford, A. B. Cook e Gilbert Murray), nova metologia comparativa (Georges Dumézil), psicanálise (Freud, Jung etc.), estruturalismo (Claude Lévi-Strauss), moderna relação mito-ritual, Escola de Roma (Brelich etc.), Escola de Paris (J.-P. Vernant, P. Vidal Naquet e M. Detienne).

No capítulo 3, O Mito para os Gregos, Dowden explora críticas ao mítico, da filosofia, história e genealogistas. Ocorre uma racionalização do mito, embora o próprio Platão, p.ex., construa mitos em suas obras.

No capítulo 4, O Mito e a Pré-História, Dowden explora o mundo micênico e defende que não é possível confiar nos mitos para colher informações históricas.

No capítulo 5, Mito e Identidade, Dowden mostra também que não é possível, através dos mitos, confiar nas informações sobre grupos, povos e tribos pré-gregas. Sua função principal não era portanto descrever fatos históricos, mas criar identidade.

Dowden continua mostrando que os mitos não podem ser consideradas fontes confiáveis para religião, geografia, rituais e as sociedades.

As Origens do Pensamento Grego - Jean-Pierre Vernant

27 de Janeiro de 2010 @ 15:21 por João Mattar

VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. Trad. Ísis Borges B. da Fonseca. 3. ed. São Paulo: Difel, 1981. Resenha de João Mattar.

Reli este livrinho, um clássico do especialista francês na Grécia Antiga, que procura relacionar o surgimento da filosofia com o surgimento da pólis grega. Ele está dividido assim: Introdução, Capítulo I. O quadro histórico, Capítulo II. A realeza micênica, Capítulo III. A crise da soberania, Capítulo IV. O universo espiritual da Polis, Capítulo V. A crise da Cidade. Os primeiros sábios, Capítulo VI. A organização do cosmos humano, Capítulo VII. Cosmogonias e mitos de soberania, Capítulo VIII. A nova imagem do mundo e Conclusão.

Depois de Creta, Vernant destaca a importância do desaparecimento do Rei Micênico, que desempenhava uma multiplicidade de funções, e toda a estrutura social que o envolve, ao contrário do que ocorre no Oriente. Com a invasão dórica e o mundo homérico, não há mais traços do controle do rei. Surge um espaço social novo, não mais agrupado em torno de um palácio real cercado de fortificações; a cidade está agora centrada na Ágora, espaço comum e público em que são debatidos problemas de interesse geral:

“É a própria cidade que se cerca de muralhas, protegendo e delimitando em sua totalidade o grupo humano que a constitui. No local em que se elevava a cidade real - residência privada, privilegiada -, ela edifica templos que abre a um culto público. Nas ruínas do palácio, nessa Acrópole que ela consagra doravante a seus deuses, é ainda a si mesma que a comunidade projeta sobre o plano do sagrado, assim como se realiza, no plano profano, no espaço da Ágora. Esse quadro urbano define efetivamente um espaço mental; descobre um novo horizonte espiritual. Desde que se centraliza na praça pública, a cidade já é, no sentido pleno do termo, uma polis.” (p. 33).

A escrita, que também desaparece, voltará mais tarde diferente, fonética, influenciada pelos fenícios.

Vernant explora então o poder da palavra. Peithó significa persuasão, debate, discussão e argumentação. A política é associada ao lógos. Vernant lembra ainda da importância da publicidade, da escrita e da redação das leis na pólis. Mas, de outro lado, explora também a ligação entre as sociedades secretas e a filosofia:

“A filosofia vai encontrar-se, pois, ao nascer, numa posição ambígua: em seus métodos, em sua inspiração aparentar-se-á ao mesmo tempo às iniciações dos mistérios e às controvérsias da ágora; flutuará entre o espírito do segredo próprio das seitas e a publicidade do debate contraditório que caracteriza a atividade política. Segundo os meios, os momentos, as tendências, ver-se-á que, como a seita pitagórica na Grande Grécia, no século VI, ela organiza-se em confraria fechada e recusa entregar à escrita uma doutrina puramente esotérica. Poderá também, como o fará o movimento dos Sofistas, integrar-se inteiramente na vida pública, apresentar-se como uma preparação ao exercício do poder na cidade e oferecer-se livremente a cada cidadão, mediante lições pagas a dinheiro. Dessa ambiguidade que marca sua origem a filosofia grega talvez jamais se tenha libertado inteiramente. O filósofo não deixará de hesitar entre duas atitudes, de hesitar entre duas tentações contrárias. Ora afirmará ser o único qualificado para dirigir o Estado, e, tomando orgulhosamente a posição do rei-divino, pretenderá, em nome desse ’saber’ que o eleva acima dos homens, reformar toda a vida social e ordenar soberanamente a cidade. Ora ele se retirará do mundo para recolher-se numa sabedoria puramente privada; agrupando em torno de si alguns discípulos, desejará com eles instaurar, na cidade, uma cidade diferente, à margem da primeira e, renunciando à vida pública, buscará sua salvação no conhecimento e na contemplação.” (p. 41-42).

A pólis instaura também a igualdade. O herói homérico, combatente individual, transforma-se no soldado-cidadão, que ocupa um posto, pertence ao grupo e se submete à disciplina.

Com a crise da cidade, ocorre a retomada e o desenvolvimento dos contatos com o Oriente, através do comércio marítimo, o que gera mudanças sociais. Ocorrerá assim uma renovação social, política e religiosa da pólis. Dike e Sophrosyne descem dos céus e instauram-se na Terra. Desenvolve-se também o pensamento moral e a reflexão política.

No início do século VI, com os pré-socráticos, desenvolve-se o conceito de physis. Vernant opõe a interpretação de Burnet para a transição mitos/logos, que defende a tese do milagre grego, à leitura de Cornford, que ressalta os pontos de contato da mitologia com a filosofia. E afirma:

“Entretanto, apesar dessas analogias e dessas reminiscências, não há realmente continuidade entre o mito e a filosofia. O filósofo não se contenta em repetir em termos de physis o que o teólogo tinha expressado em termos de Poder divino. À mudança de registro, à utilização de um vocabulário profano, correspondem uma nova atitude de espírito e um clima intelectual diferente. Com os milésios, pela primeira vez, a origem e a ordem do mundo tomam a forma de um problema explicitamente colocado a que se deve dar uma resposta sem mistério, ao nível da inteligência humana, suscetível de ser exposta e debatida publicamente, diante do conjunto dos cidadãos, como as outras questões da vida corrente. Assim se afirma uma função de conhecimento livre de toda preocupação de ordem ritual. Os ‘físicos’, deliberadamente, ignoram o mundo da religião. Sua pesquisa nada mais tem a ver com esses processos do culto aos quais o mito, apesar de sua relativa autonomia, permanecia sempre mais ou menos ligado.” (p. 76-77).

Se de um lado a filosofia mantém, inicialmente, a forma dos mitos, de outro lado ela assume o conteúdo da pólis. Ocorre assim a dessacralização do saber, o advento de um pensamento exterior à religião. Mantendo as características dos mitos ligados ao rei e ao deus ordenador, a filosofia acompanha a racionalização e racionalização da vida social.

Vernant estuda então Anaximandro e o conceito de arché, e explora a relação entre o espaço político e o cosmos (astronomia).

A filosofia estaria, portanto, determinada pelo nascimento da pólis. A noção de experimentação, entretanto, era ainda estranha aos primeiros gregos. Assim Vernant encerra seu livro:

“A razão grega não se formou tanto no comércio humano com as coisas quanto nas relações dos homens entre si. Desenvolveu-se menos através das técnicas que operam no mundo que por aquelas que dão meios para domínio de outrem e cujo instrumento comum é a linguagem: a arte do político, do retor, do professor. A razão grega é a que de maneira positiva, refletida, metódica, permite agir sobre os homens, não transformar a natureza. Dentro de seus limites como em suas inovações, é filha da cidade.” (p. 95)