Personal learning environments – the future of eLearning?
PONTYDYSGU, Graham Attwell. Personal learning environments – the future of eLearning? eLearning Papers. Vol 2, n. 1, Jan. 2007.
Resenha por João Mattar.
A indicação partiu do Emílio e valeu muito. Não fiz uma resenha clássica, seguindo todos os pontos abordados pelo artigo, mas um resumo das idéias que mais me interessavam e que me pareciam mais novas, sem respeitar a ordem em que elas aparecem no texto, acrescentadas de alguns comentários ou complementos meus.
Os softwares educacionais sempre ampliam ou restringem algumas abordagens pedagógicas para o aprendizado, ou seja, não existe um software pedagogicamente neutro. Mas o aprendizado do futuro vai ocorrer em diferentes contextos e situações, inclusive informais, e não será oferecido por um provedor único. Nesse sentido, é provável que em alguns anos não precisemos mais dos Ambientes Virtuais de Aprendizagem, pois estaria surgindo uma nova abordagem para a utilização de tecnologias no aprendizado: os PLEs – Personal Learning Environments, ou APEs – Ambientes Pessoais de Aprendizagem. O PLE não é um aplicativo, mas antes uma nova abordagem para o uso de novas tecnologias para o aprendizado.
A Web 2.0 e os softwares sociais estão baseados na idéia de ‘pequenas partes, fragilmente conectadas’, usando padrões comumente reconhecidos e serviços web para ligar as idéias, o conhecimento e os artefatos. Esses softwares oferecem a oportunidade de diminuir a divisão entre produtores e consumidores. Os próprios consumidores tornam-se produtores, através da criação e do compartilhamento. Um dos resultados disso é o potencial para uma nova ecologia do conteúdo livre, com livros, materiais de aprendizado e multimídia abertos, pelo fato de os aprendizes eles mesmos se tornarem produtores de material de aprendizado.
A idéia do PLE está também baseada na capacidade de agregar diferentes serviços, como (exemplos para quem usa Mac):
* Processador de texto, como o Nisus Writer Express
* Clientes de email para comunicação, como o Mac Mail
* Agendas para administrar o trabalho e compartilhá-lo com os outros, como o iCal conectado a um website
* Audio para produzir podcasts, como o Garage Band
* Editor de vídeo produzir apresentações multimídias, como o iMovie
* Clientes de weblog client para vários blogs para os quais você contribui, como o Ecto
* Sistemas de Administração de Conteúdo para criar websites, como o Jumbla
* Weblogs pessoais, como o Knotes
* Programas de edição de fotos, como o iPhoto (e plug in para carregar para o Flickyr)
* Seviços de compartilhamento de fotos, como o Flickyr
* web Browser, como o Firefox
* Serviços de compartilhamentos de favoritos, como o Delicio-us
* Publicação de podcast, como o Jumbla plug in
* Software de apresentação, como o Keynote
* Leitor de notícias, como o Net Newsreader
* Mensagens instantâneas e VOIP, como o Skype
* Sistemas de busca, como o Spotlight e o Google
* Cliente FTP para compartilhar arquivos multimídia, como o FileChute
Este seria um PLE poderoso, utilizado pelo autor do artigo, mas todos esses softwares demoram para set up, configurar e manter. No momento, talvez ele esteja além do capacidade do aprendiz ou professor comum. Entretanto, estamos assistindo ao desenvolvimento de aplicativos que fornecem estrutura e ferramentas para facilitar o uso e a agregação de serviços distintos, como os mashups. Eu, por exemplo, tenho usado intensamente o Netvibes.
Assim, os PLEs devem se tornar centrais para o aprendizado no futuro. Esta não é exatamente uma questão técnica, mas principalmente educacional, apesar de que as mudanças nas tecnologias são os principais motores da mudança pedagógica.
Os PLEs trazem à tona o papel dos indivíduos na organização do seu aprendizado. PLEs fornecem mais independência para os aprendizes, que aprendem como assumir responsabilidade pelo seu próprio aprendizado. Eles oferecem aos aprendizes seu próprio espaço, sob seu próprio controle, para desenvolver e compartilhar suas idéias. Um PLE permite, assim, que um aprendiz configure e desenvolva um ambiente de aprendizado para servir e possibilitar seu próprio estilo de aprendizado.
Os PLEs tendem também a reunir todo tipo de aprendizado, incluindo o aprendizado informal, o aprendizado no trabalho, o aprendizado em casa, o aprendizado guiado pela solução de problemas e o aprendizado motivado por interesses pessoais, assim como o aprendizado gerado pelo engajamento com programas de educação formais.
A fusão da comunicação baseada no computador com as ferramentas do trabalho oferece a oportunidade de desenvolver ambientes de aprendizado simultaneamente ao desenvolvimento de processos de produção e negócios através dessas interfaces. Ou seja, os PLEs possibilitam moldar o processo de trabalho através da aplicação do conhecimento ocupacional, enquanto, ao mesmo tempo, o processo de aprendizado é moldado através dos processos de trabalho.
Um PLE é, portanto, um conjunto de todas as ferramentas que utilizamos em nossa vida diária para o aprendizado. É um ambiente virtual, não apenas no sentido de que ele é baseado na Internet, mas também de que é potencial, o conjunto das infinitas combinações possíveis de todas as ferramentas disponíveis na Web 2.0, e inclusive mutável a todo instante – pode haver um PLE para disciplinas diferentes, para atividades diferentes etc.
As instituições, inicialmente, tentaram controlar o aprendizado baseado na Internet através de Sistemas de LMSs e AVAs. Mas, aos poucos, estamos começando a reconhecer que não podemos simplesmente reproduzir formas prévias de aprendizado – a sala ou a universidade - incorporadas no software. Tais ambientes podem se tornar lugares muito estéreis, e é claro que as pessoas jovens reconhecem isso. Cursos baseados em bulletin boards podem ser muito solitários. Aos poucos estamos descobrindo – ou, antes, os aprendizes estão descobrindo – novos usos da tecnologia para o aprendizado.
A reação dos sistemas educacionais é, obviamente, controlar e banir essas tecnologias. O professor Valente viveu na pele esse problema, quando foi proibido de usar o Tubarão em suas aulas online, pois tinha que usar o sistema oficial da instituição, o Blackboard, que permitia o controle. Banir e controlar. Eu também vivi o mesmo problema, quando fui proibido de transformar algumas aulas presenciais em semipresenciais, pois também fugiriam do controle do departamento de EaD, fugiriam do padrão.
Ambientes Pessoais de Aprendizado têm potencial para trazer esses mundos diferentes e inter-relacionados da vida para o aprendizado da escola e do ensino superior. O desenvolvimento do aprendizado e o desenvolvimento do conhecimento eram vistos como pertencentes a domínios diferentes. O desafio, agora, é como espirais do conhecimento podem levar ao desenvolvimento e à externalização do conhecimento novo.
Há, entretanto, várias questões não resolvidas, como quem fornece os serviços tecnológicos, a segurança de dados e, é claro, a segurança pessoal dos estudantes.
Resta ainda a pergunta: que papéis os professores e as instituições desempenharão se os próprios aprendizes passarem a desenvolver e controlar seu próprio ambiente online de aprendizagem?
Os PLEs podem fornecer ambientes de aprendizagem mais holísticos, aproximando fontes e contextos para o aprendizado que, até agora, estiveram separadas. Podem também criar uma ponte entre os jardins emparedados das instituições educacionais e o mundo exterior.
O desenvolvimento e o suporte para os PLEs gerarão uma mudança radical, não apenas em como usamos a tecnologia educacional, mas na organização e no ethos da educação. O argumento para o uso de PLEs, portanto, não é meramente técnico, mas antes filosófico, ético e pedagógico.
26 de Outubro de 2007 @ 00:48
Olá, João!
A idéia dos PLE´s é inicialmente fantástica. Eu acredito muito nessa possibilidade de aprender na ação, experimentar, agregar, compartilhar, reformular e resignificar coletivamente.
Mas é realmente difícil visualizar o papel do professor, tutor, organizador, adminitrador, seja lá qual “or” for dentro desse novo paradigma.
Tive uma experiência recente como administrador da comunidade RH.com.br dentro do Via6, um site de relacionamento profissional. Lá, além de um fórum de debates, é possível publicar conteúdo em formatos diversos. Eu tinha a esperança de criar um ambiente para discussão e conhecimento, onde pudéssemos aprender coletivamente.
Mas no lugar do interesse em aprender, o que mais aconteceu foram pessoas “pedindo” coisas: “alguém tem um questionário de avaliação disso?”, “quem pode me dar um roteiro daquilo?”. Além de usos outros, como convites para correntes, pedidos de empregos, publicação de curriculos etc.
Daí fica a questão: como estimular o aprendizado se as pessoas querem as coisas prontas?
26 de Outubro de 2007 @ 06:02
Willyans:
Realmente há muitos problemas em todas essas idéias.
Penso que o novo papel das instituições e dos administradores tem que ser justamente o de treinar os professores e os alunos para trabalhar nesse novo cenário. E o dos professores, de testar novas tecnologias e orientar seus alunos a formar seus APEs.
Ontem eu me cadastrei na Via6. No fundo, o problema que você coloca não é exatamente em relação a forma um APE, mas em trabalhar coletivamente, na produção de conteúdo. Isso pode acontecer mesmo dentro de ambientes de aprendizagem tradicionais e há técnicas desenvolvidas para conseguir isso. Mas realmente não é fácil, penso que não estamos mesmo preparados para isso.